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Nós podemos: a vitória de Lula, o império e a força que nasce da dificuldade
Uma virada inédita contra big techs, aposta do mercado e Doutrina Donroe. Por que a fala de Trump sobre fraude não se sustenta e o que Brasil, Rússia, China e Irã ensinam sobre caminhos próprios.
Quarenta e cinco por cento. Vinte e um dias depois: cinquenta e um vírgula setenta e nove. Nunca, na história das eleições presidenciais do Brasil, quem terminou o primeiro turno em segundo lugar tinha virado a disputa. Até o domingo, 25 de outubro de 2026.
Começo dizendo de que lugar falo: sou militante do PCdoB e apoiei a reeleição do presidente Lula. Mas comemorar não é desligar o cérebro. Este texto separa o que é fato verificado do que é a minha leitura política.
O tamanho da virada
O TSE proclamou: Lula teve 64.256.232 votos, 51,79% dos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro. É a maior votação para presidente da história do país. Entre os dois turnos, Lula ganhou mais de dez milhões de votos, e a abstenção caiu de 21% para 19,21%: gente que ficou em casa no primeiro turno saiu para votar no segundo.
Pense num time que vai para o intervalo perdendo. O técnico não troca o time inteiro, mas a torcida acorda e cada jogador volta para marcar. A Agência Brasil registrou que a campanha tomou fôlego a partir de uma reação nas redes e de manifestações de rua. Não caiu do céu. Quando o povo se mexe, a correlação de forças muda.
Contra quem foi essa vitória
As big techs. A Meta admitiu que a sua inteligência artificial bloqueou material de campanha a favor de Lula e liberou a mesma ferramenta para Flávio. A empresa falou em falha. Pode ser, mas um juiz que só marca impedimento de um lado afeta o jogo mesmo quando "erra". No discurso da vitória, Lula disse que foi preciso vencer "a intromissão vinda de fora para dentro através de plataformas digitais" e prometeu regulá-las.
O mercado financeiro. A Folha registrou que a vitória frustrou as apostas do mercado. Na segunda-feira, a bolsa chegou a cair mais de 17% e o dólar chegou a R$ 5,60.
O império. A Estratégia de Segurança Nacional do governo Trump fala em "reafirmar e aplicar a Doutrina Monroe". Depois da operação militar que capturou Nicolás Maduro, o próprio Trump disse: "agora chamam de Doutrina Donroe". No começo de outubro, o G1 contava oito presidentes sul-americanos alinhados a Trump e dizia que Flávio poderia ser o nono. O nono não veio.
"Quando o resultado agradou, a urna era exemplo. Quando desagradou, virou suspeita."
"Pareceu fraudada": quatro perguntas simples
Trump disse que a eleição "pareceu mais uma eleição fraudada", citando a prorrogação do horário de votação, sem apresentar prova. Mas: (1) no primeiro turno, ele mesmo elogiou o Brasil por divulgar os resultados "no mesmo dia!"; (2) a prorrogação foi pedida pelo PT e também pelo PL, e valeu só para seções ainda abertas às 17h; (3) quem proclamou o resultado foi o presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, indicado ao STF por Jair Bolsonaro, que afirmou que a prorrogação não alterou a apuração; (4) partidos que apoiaram Flávio, como União Brasil, Republicanos e Podemos, reconheceram o resultado.
Comemorar sem dormir
Flávio não reconheceu a derrota e disse que vai pedir a anulação. O governo americano segurou o comunicado de reconhecimento. E quase 60 milhões de brasileiros votaram no outro candidato: muitos são trabalhadores como nós, que precisam ser ouvidos e convencidos, não tratados como inimigos. Ganhar a eleição é receber a chave da casa; a reforma ainda está por fazer.
A dificuldade como professora
Celso Furtado mostrou que a crise de 1929 deslocou o centro dinâmico da economia brasileira para o mercado interno, e a indústria passou a crescer rápido a partir de 1933. Mais recentemente, com o tarifaço, as vendas para os EUA caíram 6,6% em 2025, mas as exportações totais bateram recorde de US$ 348,7 bilhões, com mais vendas para China, União Europeia e Argentina. Não foi indolor, mas a porta fechada obrigou a abrir outras.
Lá fora, a Rússia se tornou a maior exportadora de trigo do mundo depois das sanções de 2014, segundo a Embrapa. A China produziu um chip de 7 nanômetros depois do corte dos EUA à Huawei. O Irã chegou à autossuficiência em derivados em 2019, segundo a EIA, mas voltou a ter dificuldades após ataques e bloqueio naval. Sanção não é bênção: dói, e quem mais sofre é o povo. A lição é que depender de um só fornecedor, de uma só plataforma ou de um só mercado é entregar a chave da própria casa.
O caminho cômodo e o caminho sábio
Delivery todo dia é cômodo; a marmita dá trabalho no domingo, mas dá economia e independência. Com o país é parecido. O Pix, criado pelo Banco Central, é o exemplo do outro caminho, e justamente por isso incomodou os Estados Unidos. Para os próximos quatro anos: regular as big techs, defender ciência, indústria e refino, diversificar parceiros sem coleira e cobrar o próprio governo para que a vitória chegue à mesa da família trabalhadora.
Nós podemos. Mas "nós podemos" não é ponto final: é vírgula.
- TSE — Proclamação do resultado do 2º turno
- UOL — Virada inédita na história das eleições
- ANSA — Resultado do 1º turno
- Agência Câmara — Maior votação da história
- BBC News Brasil — Ganho de votos entre os turnos
- Agência Senado — Abstenção no 2º turno
- Agência Brasil — Virada histórica
- UOL — Lula cita intromissão de plataformas e Meta AI
- Folha — Reação do mercado
- ABC News — Doutrina Donroe e Estratégia de Segurança Nacional
- DW — Da Doutrina Monroe à Doutrina Donroe
- G1 — Oito presidentes alinhados a Trump
- Bloomberg — Trump diz que eleição pareceu fraudada
- G1 — Trump elogiou apuração no 1º turno
- Valor — Prorrogação pedida por PT e PL; indicação de Nunes Marques
- Agência Brasil — Prorrogação não alterou a apuração
- O Globo — Partidos reconhecem resultado
- AP — Flávio pede anulação
- Estudos Avançados/SciELO — Celso Furtado e o centro dinâmico
- Bloomberg Línea — Recorde de exportações em 2025
- Valor — Queda das exportações aos EUA
- Embrapa — Rússia, maior exportadora de trigo
- Brookings — Chips chineses após sanções
- EIA — Irã e autossuficiência em derivados
- Argus — Dificuldades de abastecimento no Irã em 2026
- G1 — Investigação dos EUA contra o Pix